— Breno? — Ela chamava, sorrindo escuro, olhos alvi-fagulhantes.
A lua debruçava-se pela janela, cobria Lívia com véu transluzente, pálida. As costas e a anca curvas, num serpentear lânguido, abrasando os seios em minha pele, mergulhada na escuridão do meu corpo.
— Breno? — Chamava sorrindo, lábios gris-cintilantes, olhos noturnos.
Amor luarado, tez lívida. Meus dedos escorriam pela luz, pelas costas, pela anca, até o escuro, constritos. Uma brisa abria a sua boca e ela se arrepiava. Aguada, afogava-me, inundando meus lábios. Com novos ares a me encher, despertei como se sufocasse, desesperado por ar. Meus dedos se fecharam, agarrando um tecido úmido, e ouvi o estalar sufocado da água contra o piso. Levei a mão à vista e o que havia era uma pequena calcinha voluptuosamente perfumada.
20.5.13
16.5.13
753 Recreio
Despertou Aurora, a de fios áureos, lançando os dedinhos róseos ao ar. Arranhava a imensidão, partia o cobertor cuja alvura e maciez provinha de tempos de claridade, antes ou depois do mundo obnubilar-se, e descobria Hélio, o de corpo ardente. Sombrio, ergueu-se lentamente para ninar Aurora até o retorno de Diana de seu pernoite. Na hora clara, ao festejarem os pássaros o calor da vida, já deveria estar de volta. Mas não: já faz uns dias que não sabem dela. Mesmo assim adormece Aurora e inicia Hélio sua caminhada até o ponto mais alto da morada.
Para alguns, é vil. Lança um olhar furioso que cega aqueles que o encaram. Outros passam cabisbaixos, temerosos ou exaustos: braços e cabeça dependurados; torso derretido, com odor repulsivo; joelhos desejosos de dobrarem-se; pés constrangidos, borbulhantes. Para os que o adoram, sua presença é festiva. Dá-lhes Hélio segurança. Deitam-se sob a vigília incandescente de seus olhos, esticam mantas ritualistas às orlas, oferecem seus corpos ungidos pelo fogo de sua essência. O rei ígneo, da alta torre do reino, vigia e acalenta o repouso dos servos.
Um rei sem rainha, observe-se. Toma por amante a plebe, dia após dia, com exceção daqueles em que desperta anuviado, lânguido, frio. Quando assim, poucos ousam atravessar portas afora. Se deixam a casa, fazem por obrigação. Os que padecem de inércia se vão por janelas, com o silêncio da morfina.
Hélio, não. Sempre desperto, sempre às voltas. Por um lado, Aurora: sua vida, seu emergir; por outro, Diana o põe abaixo, roubando-lhe o brio. Não há paixão mais funesta do que a de Hélio e Diana. Sabem todos que, ao ir-se ao outro extremo da alta casa, ocupa Diana sua ausência, envolta num véu de brilhantina que, por vezes, usa para ocultar a face. Hélio, ainda que esquecido e distante, faz pousar em Diana sua luz, seu ser. Contudo basta querê-la próxima para que nos fuja a todos à vista.
Deixava o amante, inflamado, o cerúleo mirante em que estava e, a poucos passos descidos, saída de alguma sombra, contemplava a mulher mais bela de sua partida. Era uma de sua apreciada ralé, das que o celebram e se entregam ao fervor de seu corpo. Ela não podia negar. Carregava consigo a marca, na cútis, do amor brônzeo: sua pele, invejada, de cor lasciva. E tinha beleza jovem, com formosura de mulher adulta. Além disso, e da delicadeza comum às pequenas, possuía a noite nos olhos e os fios de Aurora, embora as raízes negassem.
Quem toma para si essa imagem, ou outra de igual deleite, não faz memória de traje. Nunca tendo visto, porém, o corpo como se desejava ver e, assim, não sendo possível imaginá-lo com precisão, desenha-se a vestimenta que lhe apraz, ou a nudez que excitar.
Estava num ponto de ônibus, à espera, ansiosa de chegar aonde quer, vestida à pensamento livre. Quando à distância de distinção, pôde enxergar o letreiro “753 Recreio”. Então, estendeu o braço direito, dobrando-se Hélio para beijá-lo com hálito quente, dos delgados dedos à salina tez, e o condutor viu o membro estendido, freando de imediato, para que entrasse a bela em seu carro.
Dentro, a cancela rotatória estalou; pequenas peças metálicas tilintaram, de uma mão à outra; a máquina roncou adiante. A mulher sentou-se numa das primeiras poltronas, à janela, de frente a um anteparo de vidro. Do outro lado, havia um pano azul, junto a ele, que ocultava a feiúra além – de outra mulher, responsável pelas passagens, e do motorista veloz –, fazendo refletir a beleza aquém, como anelava Hélio, com ornamentos cintilantes. Os fios de ouro brilhavam vivazes, com o fulgor dos raios do meio-dia, e todos ao seu redor não passavam de sombras e, como tais, pelo seu lume morriam. Um vento forte invadia a janela, volteando o bronze candente que abrasava paixão, ciúme e inveja.
O ônibus corria sobre a pista negra num deslizar imprudente, ignorando avisos, obstáculos e qualquer outro veículo que lhe quisesse acompanhar a corrida. Mas nada, à formosa, importava. Tudo era vulto deixado para trás. Seus dedos finos entremeavam nos fios claros, penteando, e os seus olhos examinavam a posição das mechas pela penteadeira improvisada. Era tão fantástico o reflexo auri-brônzeo que por ele se encantara, e quanto mais, com as mãos, perturbava as ondas do cabelo, mais se prendia às próprias carícias. Quem, no entanto, se a visse, não morreria em fascínio?
De repente, soluçou um espanto, uma paixão dilacerante, e lançou-se contra si, o espelho, na ação brusca dos freios, no som febril e derrapante dos pneus. Dividiu a imagem em várias, cada parte numa moldura fendida. Enrubesceu mais a face – agora veiada por córregos escarlates – e os lábios pulsantes, molhados, gotejando a gula do beijo. A luxúria preencheu todo o lugar, dando vida ao inanimado. Assim, a ferragem, excitada, penetrou-a por todos os lados: um orifício para cada metal trespassado. Uma orgia férrea. E, ao fim, quando o ânimo se esvai, nem suspiro se ouve. A amante queda em descanso profundo, numa alcova metálica de armação retorcida, enquanto o rubor se desvanece por hastes abaixo.
Como que se apagando, caía Hélio numa melancolia rubra, com a chegada da noite púrpura. Vestiu o arrebol e seguiu oculto ao seu repouso. Não por acaso, surgiu Diana ao longe, oposta, furtiva, como um arco tênue de luz descoberto na imensidão escura. Mas ninguém os viu. A população mórbida admirava o ocaso terreno que formara um lago negro na via.
14.11.12
8.10.12
Os bichos
Dianinha,
Gostavas de cada bicho!
Seguiam-te pelo grande pátio da escola,
Montavam guarda à tua mesa,
Na sala.
Eu seguia-te com os olhos -
Mãos ocultas,
Num presentinho tímido.
Um era cão gordo,
Loiro escovado,
Caninos inferiores salientes.
O outro, abutre esguio.
Brancos.
Eu não era muito branco.
Já nos falamos: eu e os bichos.
Nunca te falei.
Não tinha tempo.
Os bichos comeram o tempo,
Fartaram-se.
Nas sestas, os meus presentes.
Eles também nunca te falaram.
Gostavas de cada bicho!
Seguiam-te pelo grande pátio da escola,
Montavam guarda à tua mesa,
Na sala.
Eu seguia-te com os olhos -
Mãos ocultas,
Num presentinho tímido.
Um era cão gordo,
Loiro escovado,
Caninos inferiores salientes.
O outro, abutre esguio.
Brancos.
Eu não era muito branco.
Já nos falamos: eu e os bichos.
Nunca te falei.
Não tinha tempo.
Os bichos comeram o tempo,
Fartaram-se.
Nas sestas, os meus presentes.
Eles também nunca te falaram.
5.10.12
Poeminha
Pequena?
Pequenininha?
Eu nunca te falei.
Toma.
Eu não falo: estendo a mão.
Nunca te falei.
Meus presentes eram pobres.
Éramos pobres.
Crianças.
Elas não se importam.
A mim, tu importavas.
Nunca falei.
Gostava do cabelo preto.
Do teu sono.
Paixão dá sono.
Não dormia.
Alguma vez falei que te amava?
Nunca.
Pequenininha?
Eu nunca te falei.
Toma.
Eu não falo: estendo a mão.
Nunca te falei.
Meus presentes eram pobres.
Éramos pobres.
Crianças.
Elas não se importam.
A mim, tu importavas.
Nunca falei.
Gostava do cabelo preto.
Do teu sono.
Paixão dá sono.
Não dormia.
Alguma vez falei que te amava?
Nunca.
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